Críticas de Everton Santos

Amigos Teatreiros:

Referindo-me à produção escrita que farei sobre cinco espetáculos do festival Em Cena de Montenegro, prefiro me debruçar sobre os trabalhos com um olhar de espectador, procurando discorrer impressões por uma via apreciativa, ou seja, abordando pontos de vista que visem a valorização da obra montada.
A pretensão é de compartilhar diferentes concepções artísticas, refletir sobre escolhas e criar ecos sobre o nosso fazer teatral, solicitando descartarem toda e qualquer colocação que julgarem imprópria para o objetivo específico de sua obra.
As apreciações estarão disponíveis no renascencaciateatro.blogspot.com onde neste consta imagem dos autores de origem.
Assim, agradeço o aprendizado e a atenção de todos desejando sucesso ao Teatro!
Abraço,
Everton Santos – Diretor/Ator/Dramaturgo – Renascença Cia. de Teatro “25 anos fazendo muita cena…“

O MOÇO QUE CASOU COM A MEGERA


Adaptação do conto espanhol “Moço que casou com mulher braba”, de D. Juan Manuel, e da obra “A megera domada”, de Willian Schakespeare.
Equipe: Não Temos Nome Ainda – Novo Hamburgo
O trabalho, que demonstra empenho e dedicação da equipe, apresenta essencialmente dificuldades na dinâmica do espetáculo como um todo. Aponto como possibilidade de causa principal a lentidão no jogo de ação e reação, gerando-se lacunas entre uma situação de cena e outra. Os atores deixam de intensificar ritmo às cenas pelo tempo excessivo de resposta na contracenação. Perde-se a força das ações e isto torna a estrutura de representação quase linear, pois o espectador começa a se acostumar com um ritmo de perguntas e respostas onde a expectativa de surpresa fica a espera de um acaso.
A forma como o texto se coloca também ressalto como um aspecto de revisão. Deparo-me com uma musicalidade linear, o que ocorre muitas vezes com este estilo de texto empregado, pois o ator tende a cair no vício de uma musicalidade poética distanciada do sentido falado, da ação vocal a ser empregada. O surgimento de gritos abruptos e de melodiosas rimas sem tônus é outra questão a ser pensada, pois dificulta a construção de nuances aos personagens. A melhor articulação das palavras, que em momentos não se entende o que é dito, pode colaborar na limpeza da projeção vocal e no sentido do próprio texto, valorizando assim os diálogos e sua própria dinâmica.
Outro aspecto que abordo é o papel do Coro, que nos proporciona boas imagens dentro do espetáculo. Sua composição como elemento de cenografia é rico, porém ainda tímido em sua função. Vejo um aproveitamento pontual no momento em que auxilia na arrumação da noiva ou mesmo no “surto” de Petruchio, no entanto pode-se explorar mais a sua relação coringa de encenação, quem sabe até como um elemento satírico das situações.
Alerto ainda para o cuidado das locomoções nas coxias. Por vezes era visível a movimentação dos atores de um lugar para outro, esbarrando em cortinas ou mesmo entre si em saídas e entradas de palco. Isto tira o foco da cena e desmerece o trabalho. É necessário estar atento mesmo fora do espaço cênico e, quando dispomos de um grande número de atores pelos bastidores, a concentração e cuidado devem ser redobrados.

A farsa é um gênero que se caracteriza por sua comicidade exagerada, por gestos amplos, por personagens tipos bem marcados e principalmente pela forma de comunicação com o público. A peça hamburguesa não nega o gênero, no entanto percebo uma questão de apostar mais nas estruturas de construção cênica que uma farsa oferece, sugerindo provocar zonas de desconforto em um processo físico aos alunos atores, os quais possam experimentar outras formas de elaboração corporal para suas personagens, pesquisando diferentes maneiras de oralidade e ampliando a gestualidade dos movimentos característicos de suas criações. A comunicação com a plateia, trazendo-a para dialogar com a peça através do divertimento, é relação fundamental num enredo farsesco. O trabalho está encaminhado em seu conjunto e revela interessantes recursos de encenação, então sucesso, suor e diversão em seu fazer.

A COTOVIA E A ROSA

Adaptação do conto de Oscar Wilde “O rouxinol e a rosa”
Equipe: Núcleo Teatral – Guaíba
Trazendo uma concepção lírica, o espetáculo se pauta por um forte apelo estético, no meu ver, valorizando em demasia os elementos de composição da encenação como a iluminação e principalmente a trilha sonora, que nem sempre contribui com seu papel dentro da peça. Em princípio, a utilização destes recursos precede um olhar funcional, porém tenho a sensação de que estes efeitos técnicos ditam a condução do próprio trabalho. A trilha exerce uma marcação muito forte, direcionando todas as cenas, deslocamentos e gestuais das personagens, além de moldar a plasticidade de cada movimento sobrepondo-se à relação dramática do ator. As músicas aparecem, por vezes, sublinhando situações ou com extensa continuidade, esgotando o seu próprio sentido na cena. Remete-me mais a um universo coreografado do que a um universo com teatralidade.
Não vejo o ator sendo agregado à proposta da encenação na mesma medida dos efeitos técnicos, os quais nem sempre são bem operados. Percebo o ator em segundo plano, sendo ele um instrumento complementar de suporte e não o próprio suporte da dramaticidade do espetáculo. Dificulta-se a composição de um personagem com aderência, que possibilite o espectador ser tocado por sua ação sensível e não apenas pelo que um recurso técnico possa parecer exercer na cena. As impostações textuais com efeitos e musicalidades vocais lineares também são aspectos de esvaziamento do sentido das palavras ditas, e que aparecem de forma acentuada nas figuras da roseira e do estudante. Já a Cotovia é permeada por sensibilidade, mas um pouco tímida, segurada pela marcação da trilha sonora. Ela quem proporciona um certo tom de lirismo que a montagem se propõe.
O trabalho do ator precisa pulsar. Ele é a chave para a condução do espetáculo. É nele que ocorre a transformação de estados da alma, nos abarcando com seu silencioso e gritante sentido de agir. Ele é quem cadencia e sustenta, por sua experiência e tradição, a dramaticidade de uma cena. Resgatar a função teatral da atuação pode ser um passo…

MADAMES

Adaptação da obra de Jean Genet “As criadas”
Equipe: Grupo de Teatro da Fundarte – Montenegro
Permeada por um tom quase tragicômico, a peça proporciona, em sua totalidade, uma visibilidade de variações de estados dentro da atmosfera sádica do enredo. Surgem personagens com boa constituição e um cenário bem disposto com possibilidade de ser mais explorado. As músicas escolhidas para a trilha sonora, por vezes se relacionam bem com as cenas, por vezes não me dizem muito quanto a sua contribuição complementar de efeito. O som, em vários momentos é alto, prejudicando o entendimento das falas, além de aparecer algumas falhas na sua operação (atrasos e adiantamentos de entradas e manuseios abruptos). Questiono o emprego de fumaça como efeito auxiliador na construção de atmosfera, e me parece em demasia seu uso no início do trabalho.
Quanto às personagens, ressalto uma certa falta de amadurecimento na configuração artística das criadas necessitando de maior aprofundamento, pois trabalhar com qualquer situação de loucura exige muito do ator para passar o seu discurso com veemência, explorando as contrariedades que são frutos de um papel neste sentido. Isto é perceptivo em determinadas falas que surgem num tom mais marcado do que compreendido pelo sentido de reação. A falta de apropriação no manuseio de determinados objetos, os quais, no universo destas irmãs, são manuseados constantemente em seus rituais de assassinato, se tornando elementos de extensão de seu próprio corpo, também é questão a resolver. No entanto o espetáculo toma corpo e dinâmica com a entrada de Madame, personagem bem caracterizada pela atriz. Ela aproxima a platéia da história, cativa a atenção do público, proporcionando melhor entendimento do papel de cada personagem pela sua própria constituição de sentido e entrega às cenas de forma prazerosa. Alavanca o ritmo das enunciações textuais, contribuindo também na movimentação espacial e na integração de alguns objetos de cena.

         Trabalhar os universos dementes propostos por Genet é alvo de grande desafio para qualquer montagem. Suas ricas elaborações dramatúrgicas nos colocam em constante estado de inquietação, pois a necessidade do artista se desnudar de suas próprias questões morais e culturais é fato significante para a construção de seus personagens. E dentro da escolha do Grupo da Fundarte em encenar o sadismo explorado por Jean, não é diferente tais dificuldades. Pesquisar, aprofundar e procurar equilibrar as energias de atuação fará a amplitude do espetáculo.

 



TODOS POR UMA COISA SÓ

Baseado na obra de Guto Greco “Guerriros da bagunça”
Equipe: Tribu di Arteiros – Morro Reuter
 Um belo espetáculo infantil que agrada crianças e adultos. O mundo das brincadeiras de infância, das galhofas sem maldade, do faz de conta “às ganhas” trazem a esta montagem a simultaneidade e contrariedade do riso e da comoção pela situação despojada e escancarada da fome, apresentada de maneira leve e divertida.
 É uma grata surpresa poder discorrer sobre tantos pontos positivos neste trabalho: uma representação com forma e ritmo, um figurino apropriado, uma estrutura cenográfica funcional e bem elaborada, uma boa maquiagem, uma trilha sonora bem construída e operada, um texto dominado.
 A peça proporciona o gosto de ver teatro por sua dinâmica e, bem provável, pelo prazer dos atores em encená-la, pois é notável o prazer dos artistas em realizar o seu trabalho. No entanto, observo que os personagens Pezinho e Pança ainda necessitam explorar mais o seu vigor cênico para equilibrar com os demais personagens que demonstram uma energia diferenciada de encenação. Jogar e contracenar de maneira mais audaciosa talvez possa resultar a estes dois personagens maior determinação em suas funções e em suas estruturas de conflito.
O espetáculo está “redondo”, mas sempre pode melhorar. Sucesso!

A INTRUSA


Adaptação da obra de Maurice Maeterlinck “A Intrusa”
Equipe: Cia Retalhos do Teatro – Santa Maria

O grupo santamariense encara uma obra simbolista para fazer o seu teatro. Um mundo aparentemente desconexo e sem discurso de ligação, dentro de um contexto de loucura e degradação, é de onde parte esta montagem.
A encenação apresenta dificuldades na estruturação densa da situação de espera, que é o mote para a percepção do que está para ser revelado. O começo do espetáculo é grandioso provocando o pulsar do espectador através do silêncio e da ação contida da criada até o momento em que chega a família trazendo a avó cega. A partir desta cena surgem os textos e junto com eles, formas impostadas de enunciação e cantilenas lineares, criando uma ruptura do denso e se instaurando uma espécie de lentidão vazia. O excessivo vigor textual empregado por vezes, buscando gerar uma espécie de tensão nas cenas, distancia o espectador dos sentidos do que está por trás do que é falado, pois a faceta do subentendido não fica claro e não se sustenta apenas pelo que é dito pelo texto, mas como é dito o texto.
 O como também é fator implicante na ocorrência de ações e deslocamentos vagarosos, sem tônus, que ficam na superfície dos gestos fazendo com que a loucura não se sustente e não se mostre determinante das aparências e da própria incapacidade de percepção das personagens. Este jogo é importante para a instauração da encenação simbolista e enriquece o olhar e a atenção do espectador.

Mas me chama atenção a figura da Avó, personagem que me remete ao universo de contrapontos e de dualidades por sua construção. Aguça-me e me mantém focado por sua densidade palpável e por me provocar uma contínua sensação de expectativa. Centra em si o fio condutor do espírito da obra. Observo ainda, a constituição cênica da Criada em seus momentos de silêncio, pois quando o texto lhe vem, não se mostra com a mesma compreensão dramática, aparece deslocado, não corporificado e integrado ainda dentro de sua composição. 

Penso que o espetáculo, que se mostra preocupado em construir uma boa articulação, e que nos traz uma bela trilha sonora e boa iluminação, pode se debruçar na pesquisa do gênero, intensificando o experimento do silêncio e de pausas que falem mais pelas situações. As revelações dependem desta subjetividade. É o que sinto.

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